21/5/09
        Eu a vejo da vitrine. Do lado de fora da janela de sua vida. Eu desejo seu desejo e os olhares que ela lança a ele enquanto conversam. Queria tocar seus sonhos, seu amor. Eu a vejo da vitrine e sei que embora possa tê-la em meus braços a qualquer tempo, não posso roubar-lhe a alma. Eu sei que os sorrisos que escapam pelo canto de sua boca enquanto ouve o timbre da voz dele dizem muito mais do que qualquer jura que eu possa arrancar-lhe.
         Eu desejo o desejo, mesmo sabendo que eu nunca a amaria como ele a ama. Certas pessoas simplesmente não sabem amar.
9/10/08
São oito horas da manhã. Eu me sento na sala, eu sempre achei material pra escritório uma coisa muito engraçada, tem algumas coisas que só passam a fazer sentido depois que se começa a trabalhar… "molha dedos", aquele negocio de arrancar grampos dos papéis… assim vai…
Provavelmente por aqui essas são as unicas coisas que tem algum sentido. Este trabaho não tem. As vezes eu acho que essa minha rebeldia constitui uma certa vocação pra pobreza. Mas isso é só as vezes, nas outras vezes eu sei que na verdade nada disso, escritorio, cadeiras de couro,ar condicionado, nada disso faz do mundo um lugar melhor, ou faz de mim uma pessoa melhor, ou ao menos feliz.
Não que eu não queira nada. Eu tenho muitos ideais, os quais eu nunca vou alcançar sentada aqui, bebendo àgua em copos descartáveis. Desperdiçando papel. Papel vai, papel vem, eu poderia fazer uma rota de papéis! Odeio procedimentos, burocracias. Acho que meu trabalho teria muitos mais frutos se eu estivesse no meu canto, cuidando da minha vida, das minhas ações, sentindo o vento bater no rosto.
Um pedaço de terra pra viver, plantar e poder desfrutar da vida acreditando que a crise economica norte americana é só mais uma abstração louca. Queria viver no concreto, aonde viver é sustentar a própria existencia e não no mundo das linhas e fronteiras imaginárias, dos milhões virtuais em movimento. Porque a cada dia que passa essa cultura nos convence que a nossa vida está guardada em outro lugar, em outras telas, outros momentos, outras mãos. E isso, éo Diabo.
29/7/08
Nas distâncias que percorri rumo a um destino mais que incerto, muitas foram as belezas que vi. Planícies, gado, plantação, arrebol, lagos, horizontes… não vi você.
Não é possível pra mim conceber que dentre todas coisas que vejo não haja teu rosto. Olhando para o horizonte já no norte do país, contemplando a vermelhidão do poente não posso conceber sua ausência. Pois tudo que busquei até hoje conquistei em teu abraço, não entendo uma busca desenfreada pra qual fui empurrado pelas necessidades tolas de uma vida inserida na lógica. Não há lógica.
Também não há busca que não seja pelo reencontro, e não há batalha que não seja por tua conquista. Durmo e acordo com tua lembrança e ainda no silêncio das madrugadas posso ouvir seu sorriso tão distante, tão sincero.
"Cada dia a mais era um a menos"
28/4/08
Eu trilhei seu caminho com meus próprios pés. Eu andei por onde foram seus passos, e por onde em algum momento vocês se deixou levar por devaneios vãos, por preocupações humanas ou quem sabe pela alegria de quem faz qualquer simplicidade .
Será que seu olhar pousou no acidentado relevo, já modificado por mãos humanas, mas ainda inabitado e verde? Será que seu olhar se perdeu no vazio enquanto você pensava em uns novos versos nas indas e vindas suas?
Porque toda tentativa minha de imaginar e recriar suas idéias em mim, é um tentativa vã de tocar sua alma. De entender e te possuir um pouco mais em mim. De poder ter nos meus pensamentos aquilo que você imaginou, e de ter também nos meus desejos as suas vontades.
E se eu visse como vêem seus olhos eu poderia desabrochar como você, e talvez provar um pouco dessa coragem? Por que entre nós existe um abismo que nos mantém a distância em que devem se manter todos os amores, nos mantém exatamente em um lugar de onde enxergamos, amamos, tocamos e sentimos sem poder nos atravessar.
Existe ainda o mistério profundo que é você e o enigma de amar-te. Uma vontade imensa de desvendar-te ou quem sabe desvendar a mim mesmo, pra que assim eu pudesse te enxergar ainda melhor.
8/4/08
Tirando toda essa poesia e essas belezas da semântica, vou falar um pouco da realidade.
Ela estava lá, linda, cantando mais um daqueles sambas que eu já decorei a letra há muito tempo. Não sei bem como a conversa surgiu, mas com certeza foi com a ajuda do nosso estado alcoolico. Quando dei por mim a gente já sorria de algum assunto banal, eu balançava a cabeça e sorria, na verdade eu não ouvia bem o que ela dizia por que o vocalista gritava desafinando, mas eu não queria que ela parasse de falar. Balancei a cabeça mais uma vez.
A verdade é que eu estava prestando atenção em como sua boca se encaixava perfeitamente naquele rosto emoldurado pelos cachos castanhos, e quando ela sorria seu queixo se projetava levemente pra frente, tive que conter meu impulso em colocar meus lábios junto aos seus durante esses movimentos de projeção mandibular.
Não era uma pessoa como outra qualquer, e eu comecei a me atrapalhar, por que já não sou dotado de grande coordenação motora e quando fico nervoso por estar diante DELA meu estado se agrava mais, tropecei algumas vezes enquanto caminhavamos pro lado de fora, derrubei cerveja na minha calça, me envergonhei da minha falta de jeito.
Conversamos a noite inteira e eu me preocupei se não havia alguma sujeira nos meus dentes, porque tudo parecia muito perfeito e ela sabia filosofia, falava da teoria do Caos, ela dizia de muitas coisas e eu… Que posso dizer? Fiquei com medo dela não me ligar no dia seguinte.
Ela ligou.
Nós nos achamos.
Era pra eu ter escrito muito mais do que venho escrevendo. De fato eu gosto de escrever, mas é que ultimamente tem um nome no meio das minhas palavras, o nome dela. Tem um rosto no meio das minhas idéias, e um belo par de pernas passeando pelos meus pensamentos.
E não é cretinice minha, não. Eu firmei compromisso, sorri só com a lembrança de alguns olhares trocados e fiz do seu peito minha pátria. Pela primeira vez na minha vida quis contar pros meus amigos que eu estava com ela, que sou dela como nunca fui de ninguém.
Eu tenho medo de ser piegas, mas não existe nenhum amor que não seja meloso, melindroso e bom. Por que é bom. Me entregar na calmaria daqueles baços e nas tormentas daqueles lábios. E eu me entrego.
Mergulho nas profundezas do castanho dos seus olhos, e bebo na fonte das suas idéias. Por que eu nunca pensei que encontraria ela, era utópico demais pensar que em algum lugar passeava alguém com o poder de preencher todo o vazio do meu peito.
15/3/08
Uma das coisas que me causa maior indignação na raça humana é a sua mania de superioridade. De viver espalhando aos quatro ventos aquela história de que é animal racional, é diferente, essa besteira toda.
Todo mundo sabe que nas ações do homem existe tudo, menos racionalidade, basta observar o estado calamitoso do nosso planeta. Entre cada homem existe um abismo imenso, que tenta-se preencher com palavras. O único ser que pra se comunicar precisa de tantos signos, e ainda sim é evidente que toda essa comunicação é falha.
Na história da humanidade dá pra ver a ridicula tentativa do homem de ser alguma coisa. Queria ser o centro do universo, queria ser um ser sublime e acabou descobrindo que era descendente direto dos primatas. Vai daí pra pior.
Devo dizer que pra mim o homem foi um dos animais que deu errado na evolução, começou a se desentender, começou a inventar um monte de preioridades estúpidas por que simplesmente é o único dos animais que não dá conta da vida e passa os dias lutando com a morte.
3/3/08
Por que ultimamente eu tenho estado como nunca estive, e de fato nunca quis estar. Mas existe uma paz naqueles olhos e uma tempestade naqueles lábios e eu não posso resistir.
Sempre tive medo de entregar as rédeas da minha vida nas mãos de um outro alguém, até que este alguém chegasse pra me mostrar que essas rédeas nunca estiveram comigo.
Eu tive medo daquele sorriso, eu me calei muitas vezes e deixei de lado os nomes que desnudam os fatos. Eu me calei porque fui covarde e talvez pela minha covardia eu vá embora, não por falta de amor mas por amar demais.
Eu temo que tudo estivesse sentenciado a dar errado no momento em que começou. Temo que tudo acabe num suspiro ou mesmo no becejo, na monotonia da ausencia. Mas eu sei que não somos ausência e que meu temor é vão.
Eu sei que não vou embora, não vou porque já me entreguei e as rédeas já não são minhas, são seus braços e não mais minhas pernas que me conduzem por essas estradas.
25/2/08
Mareados eram meus olhos.
De tudo que havia antes.
Dos mares já navegados.
Depois era maremoto, a sua aparição.
E marejados meus olhos, a contemplar-te a face.
Deixei-me guiar pelos faróis teus,
E levar-me por tuas ondas.
Marinheiro eu já não era mais,
Era só teu.
E ainda sou.
Maravilhado por tuas águas.
Ancorei meu xaveco.
Abandonei todos os mares por maretas tuas.
Vivo agora a margear-te.
E a acompanhar-te em tuas marés.